Elvira Eldorado é uma preta, velha, tem setenta e dois anos. Todo sábado, descansada do almoço, lá pelas três, ela sai de casa com seu passo miúdo, sacola na mão levando um tesouro. Um vestido de cores e estampa extravagantes, um punhado de colares de contas variadas e um chapéu trabalhado com enfeites kitch, que ela nem sabe o que é, mas que é, na linguagem dos dias de agora, vistas pelos olhos de quem gosta de lê.
D. Elvira não gosta de lê, mal assina o nome. D. Elvira gosta mesmo é de dançar. Passa a tarde toda saracoteando no terreiro de seu Jorge. Ela e as meninas da sua idade. D. Elvira dança, brinca, sacode absurdamente o corpo como se fosse uma menina de 13 anos e é essa menina mesma que ela vê quando brinca, lembrando do terreiro varridinho de sua avó quando ela era menina moça. Mas a avó agora é ela. Naldinho, seu neto, vê a avó sair todo sábado e pergunta pra onde ela vai.
— Vou brincar — Responde D. Elvira, com risinho sapeca.
— Como é que a Vó numa idade dessas ainda vai brincar? — E Naldinho fica intrigado.
Naldinho não sabe, mas Elvira é uma criança como ele, lá no íntimo. Nunca deixou que suas dores fossem maiores que ela. Isso não. Nem o suplicio de casar e viver pobre com três filhos para criar, nem a doenças que levou metade da família, nem os dias de fome, um jejum involuntário que ela passou com paciência e sem perder o gosto pela vida.
No terreiro de seu Jorge, quando Elvira não vem a alegria é menor. Ela tem um jeito de dançar, um jeito de cantar que todos sabem que é especial. E é mesmo. Elvira é dessas pretas que traz um pedaço da África no corpo e uma brasilidade que se foi formando nos anos. Elvira olha seu Jorge com um olhar travesso e o velho não se contém. Tivesse o mesmo vigor dela, agarraria essa preta agora mesmo, na frente de todos, e encheria ela de beijos. Mas Elvira vira o olhar, já está puxando outra cantiga, fazendo uns sons coma boca que ninguém consegue imitar...
Janis X mal chega em casa e se tranca no quarto em que ele o irmão dormem. O irmão que se vire. Ele fica ali ouvindo suas músicas barulhentas, suas letras ininteligíveis, um fone no ouvido impede a que a casa vá abaixo. Não adianta sua mãe chamar, nem dizer que vai levar ao médico, nem ouvir os conselhos da vizinha sobre as esquisitices do filho. Janis X vive o seu mundo de melodias e imagens que ele cria na cabeça.
Depois vai pra Lan house e fala com o mundo todo, escreve poemas que ele não sabe, mas que flagra o mundo e o seu tempo, faz um diálogo absurdo com o cosmo e consigo mesmo tentando entender quem é, de onde vem e pra onde vai. Não adianta! Gasta toda a grana em horas seguidas de internet e quando sai da Lan continua com as mesmas dúvidas de quando entrara, mas falou muito com todos e descobriu que o doido não é só ele. O mundo tá cheio de doido! Descobre surpreso e alegre, um sentimento de par, de alguém mais conviver com essa sensação de merda que lhe toma de vez em quando.
Adora sexo virtual, fica curtindo uma minas nuas, bucetas arreganhadas, cuzinhos à mostra, seios de vaca... Adora imaginar-se chupando esses seios, mas muda de pensamento, pois logo lhe vem a imagem da mãe amamentando-o e isto corta seu barato e ele se acha mais doido ainda... Não! Com mamãe não dá!
De vez em quando entra nuns site gays e disfarça que é só de sacanagem, mas no fundo no fundo sente que é mais, tem alguma coisa ali que lhe atrai... Puta que pariu! É melhor voltar para o Nirvana...
Quando Jackson disse ao pai que ia entrar num grupo de teatro o velho quase engasgou. Velho não, que o cara só tem 40, mas tema cabeça dos ancestrais. O menino leva jeito pra o teatro, tem o corpo delgado, uma silhueta que por pouco não chega ao feminino, mas trejeitos não. Nada dessa frescura de viadinho novo querendo dar, sem nenhum preconceito.
Jackson gosta mesmo é de viver outras pessoas, outras gentes, outras línguas, sabe que tem dentro de si milhões de seres querendo dar passagem ao mundo e que ele pode ser o porta-voz dessa torrente que lhe toma quando lê uma frase e sabe que alguém falou por ele.
Elvira, Janis X, Jackson são personagens fictícios, mas trazem consigo verdades que existem em cada esquina em cada bairro em cada cidade.
Tem mais. Tem muitos outros, cinéfilos, pintores, bailarinos, poetas, músicos, atores, palhaços, malabaristas, estranhos, taciturnos, inadequados, rodados, pinguços...
Todos eles sentem uma enorme sede de expressão e ficam tristes quando sublimam o impulso que lhes dariam vôo ou quando uma vez vislumbrado o impulso, não têm como voar. Há um deles, certamente, pertinho de você. Ou em você. Eles podem estar disfarçados de um sem número de idéias e esquisitices. Não ligue.
Agora, imagine botar tudo isso pra fora. Imagine!