13.9.06

FURACÃO

Há um furacão rondando a casa. Reforço portas, guarneço janelas, mas o seu assobio lá fora é ameaça!
Há um furacão rondando minha morada mais secreta, querendo irromper-se a ela, fragilizando a memória de minhas fortalezas.
O bicho esturra, ventas acesas, berra sua fúria e de seus olhos chispam medos aterrorizantes. Tremo, mas não vacilo. Essa besta não entra. Se entrar, não encontra nada!

20.6.06

CANTO II

Amar-te a boca, à noite, é desvario
É rio, lavo nele a prece dos meus olhos
E não me lambuzo mais porque a água é pouca
Louca, córrego que não cessa e não sacia.

Por isso lambo-me a mão em gesto pleno,
Lleno, teus cabelos com o líquido das vertigens
E virgem sopro de mim a fúria que me engole.

Vejo a liquidez rubra da ferida aberta
Certa, a centelha que me acende e adestra
E saio correndo, perseguindo o musgo que emanas
O latido do corte, o poço escuro, suas margens
Sujas e seu vão possante e nulo

17.6.06

Urucubachianas Nº 13 para piano, orquestra e coro – A Espanta Malefícios.

Os peidos de Amaral soam solenes a título de Abertura, uma série de sons entrecortados, alternando longos silvos a pequenos estampidos em semifusas. Pequenas cuspidelas de um corne inglês com boquilha rota, graciosamente acompanhado por uns estrondosos repiques de tímpano. O efeito é indescritível. O poeta compõe sua sinfonia escatológica para o deleite da platéia embriagada.
Logo a seguir, a melodia escoa para um ligeiro diálogo com o choro compulsivo de Luciano Correia, lamentoso, sinuoso, cortando o coração das gentes e enchendo as almas com a mais lancinante nostalgia. Um choro de fagote e oboé, que dilacera o peito do jornalista longínquo e enche o ar de uma dor sonora, grave...
O segundo movimento, abre com uma ária de Déda, Mutabile Mutare, um rondó mozartiano, allegro vivace, que contagia. Composta especialmente para o timbre do barítono, sua voz soa leve, aveludando-se nas notas mais agudas e encorpando-se, cavernosa, nos graves. Deda sola angústias, o efêmero dos dias e o sorriso recorrente dos que seguem. É um canto sinuoso que vem num crescendo e deságua numa marcha triunfal com a entrada do coro, uníssono, fazendo base para o solista. Os violinos trinam, alucinados, suas agudíssimas concordâncias sob o contrito gestual do Spalla Valadares, que dá o mote para as cordas se desatarem em manhosos legatos e delicados pizzicatos. É apoteótico: violas e violoncelos fremem enlouquecidos seus arcos, enquanto, Zé Eduardo no contrabaixo ponteia a melodia com sentenças abafadas. Logo as madeiras se exaltam. As clarinetas sob o comando de Jackson Barreto atacam sôfregas, fazendo a re-exposição do tema inicial, com diminutos gemidos. Oboés, fagotes e contrafagotes deliram marcando o ritmo da marcha, enquanto Eduardo Almeida pontua, taciturno, enigmáticas pausas. Os metais tinem por trás antecipando um gran finale. Rosalvo Alexandre é uma imensa tuba marcando ao fundo um fantasmagórico motivo. Os trompetes e as trompas irrompem glamurosos, cavalgando a melodia, as flautas e flautins ressoam leves e Neto dá voz a um trombone soturno.
Aí é catárquico. O coro é uma imensa massa de som. A orquestra inteira converge em tons e motivos e explode num tutti. Nosso solista dialoga com o conjunto numa voz possante: “mutare! mutare!” , vocifera, para a resposta do coro: “mutabile mutare!”
A entrada de Heleno na Harpa dá o sinal para a coda. Ele plange as cordas com graça angelical. A sinfonia cai para o pianíssimo, mas é a vez de Albano, ao piano, fazer virtuoses cerebrais e harpejos indescritíveis. O pianista desliza sobre o teclado como uma patinadora num lago congelado. As vozes já são quase um murmúrio.
Tranqüilo, Edvaldo faz a batuta deslizar no ar, deixando a orquestra em alerta: congela! E o silêncio desce como a noite. Solitários, na platéia, João e Maria estão petrificados.
Bravíssimo!

CANTO IV

Eu vigio teus passos, cauteloso.
Em silêncio zelo pelo teu errar longínquo
Sei quando cansas e te deixar estar à sombra
Repousando o corpo sobre o próprio rastro

Sei quando, de novo te animas,
E sinto o pulsar leve de teu sangue
O vigor com que caminhas sobre a neve das gentes,
O calor confortável com que aconchegas o frio

De repente, da guarda desguarneces
E tua tosca couraça dá lugar ao sono breve
Nunca mais temores, jazes indolente
O peito descuidado, a boca murcha, a alma já transida.

Sei que nunca te soubestes assim,
E se o sabes, basta, para nunca mais o sê-lo.
Por isso aprisiono essa visão que nunca houve
E esse segredo é o que me faz de ti sempre cativo.

16.2.06

Adeus

Vi logo no seu olho que já era tarde. Bastou aquela mirada de lado, esquiva, uma recusa em olhar o que fizera. Depois tinha o nervosismo do corpo impondo-lhe contornos desconfortáveis, estrangeiros a quem se acostumou com sua silhueta, com sua diária geografia ... Palavras? Inúteis. Soltou uns grunhidos, tentou umas exclamações sem força. Pra quê? Pra quê, perguntei-lhe, parando o gesto de carinho que ensaiava. Não parou. A lágrima que saltou do seu olho foi quem disse. Adeus.

7.2.06

Rio da Poesia

Por que me cubro com o lençol das palavras,
ainda que tateando o ofício de poeta?
Porque desespero, amigo!

Sou varal ao sol do fim de tarde,
a nostalgia do poente cravado na minha alma,
dissecando o que em mim não cessa de aguar.

Sangro o enxagüe do corpo, seu retorcer,
o bater nas pedras do meu rio,
a correnteza levando o que não fica,
o que não se consente mais guardar...

É neste rio que me lavo, poeta.
Bóio, bato pernas, vou ao fundo,
reviro a lama com os pés e volto,
encho-me do doce dessas águas,
me lambuzando no ventre desse córrego.

Tem mel aqui, amigo, tem mel.

21.1.06

Os Resmungos da Casa



Agora é a casa! Cismou com ela e não tem jeito. Há muito vinha resmungando, reclamando dos cômodos, dos desvãos, da sala, da falta de ar e dos ruídos que só ele ouve.
A casa também ouve. Ouve todos esses resmungos e chora baixinho a ingratidão do poeta. Essa é demais! Exclama ela. De todos poderia ouvir essas asneiras, essa galhofas, essas desonharias, mas dele, não. Quer aventurar-se em retrucar, mas a voz cala num cantinho da cozinha, ali aonde ele não mais a freqüenta, ocupado que está apenas com os novéis sabores... Deixa estar. Diz que vai embora, enrabichou-se por uma papagaia, imagine! Uma papagaia! E vem dizer que armei... Agora sou eu que não presto! Grande demais pra mim, diz ele, e a vontade que dar é deixá-lo ir. Vai. Vai viver os gradis do ap, nono andar, vista de praia, sobe e desce de elevador, vizinhos mexeriqueiros, crianças revoando nos corredores eo play ground insuportável das manhãs de domingo... Tolo este poeta... Não sabe o quanto me machuca quando diz essas coisas.
O poeta falar em ir e a casa soluça uma dor inaudível, lembra o tempo em que ela o enchia de alegria e ele a tinha na conta de seu único templo, onde reinava absoluto na sua crença nos nadas. Lembra das festas, das algazarras que lhe encheu o ventre de argamassa, dos passos lépidos dos que nunca ousaram tocar o chão, ainda sente o Brilho da cão que veio da Luiz Chaves impregnando o olhar dele e a sua pele, vê a silhueta de um Erê brincando com a luz, e de novo revê a centelha acesa da brasa do seu olho na frente do monitor gritando sua fome de existência...
Não vá poeta, não vá! Não vê que a casa és tu? Eu sou apenas estrutura aonde amparo seus queixumes e deixo desabar a contagem dos seus anos e já não sei se sou eu é ele quem envelhece.
Não vá poeta, rogo, as amendoeiras já disseram que cerram os ramos à porta impedindo-lhe a passagem. A escada promete ser generosa nas suas ascensões, o quarto começou a exalar o cheiro do último menino que encheu seus lábios de ternura e, vês, mesmo o pesado olhar do profeta Samuel ainda não decifrou direito o enigma de partir.
Não vá poeta, que esta casa não sou eu, sou apenas um amontoado de cálculos e probabilidades materiais ocupando o quadrante que é teu, como é teu também o doce luar que se filtra na sua janela, esse marulho longínquo que deixo escapar por entre minhas frestas invisíveis, o ar marinho que intoxica minhas entranhas de óxido e sal e esse maná que serves, com fartura, aos que com você vieram caminhar... Na vá poeta, não vá.

11.1.06

DA PERDIÇÃO (ou quatro desatinos)

I

Para cuidares dessa fome te dou Eu,
Inteiro corpo para a tua dentada,
E osso e carne e sentimento
E tudo mais quanto quiseres.

Salga-me com tuas maresias
Talha-me com teus pudores e vem,
Boca aberta, dentes afiados
Desfrutar da presa que ganhaste.

Cavalga sobre a indolência desse corpo
Que já não é meu,
Eu te espero com a paciência das areias
Mudas, recebendo a língua ávida do mar.

Sacia-te dessa fome que é de séculos
E repousa manso
Sobre tua vida que rumina.



II


Para te perder quero me dar-te
Ancorar-me ao passo teu
Saciando tua sede de mares,
Tua enorme fome de paisagens.

Singrar teus desejos
Conduzindo-me ao teu lado –
Imediato a bordo dessa nau
Que pensas navegar -.

Sombra antecipada,
Proa impetuosa de tua desventura.
Vou seguir varrendo ventos,
Abrindo nuvens para o fulgor dos astros,

Abrandando tempestades,
Desmanchando os furacões
Que anseiam por tragá-lo!




III


Para querer que fiques vou te ver partir.
Sentir a pontada da tua ida na espinha:
Dor imensurável, desatino e fim.
Mal que agora há de tomar-me a mão

E caminhar comigo sobre a manhã fria.
Gelo que de mim se fez na tua partida,
Inverno a que me sentencio:
Ver-te indo todo dia

Como se essa cena assim se repetisse
E me tomasse a voz e suspendesse o fôlego
Para outra vez prostrar-me à tua lembrança.



IV



Para poder te amar vou matar-me antes,
Arrancar de mim esse sopro ansioso,
Essa vontade de ficar eternamente
Esse vestígio de vida que insiste em me tentar.

Despir-me da ilusão do sofrimento
Ungir-me com o teu cheiro,
Vestir-me com a túnica da morte,
E esperá-la!

Caminhar silencioso ao cadafalso
E entregar minha cabeça para o seu punhal.
Não é possível amá-lo estando vivo.

Se tua essência é éter que não se aprisiona,
Como então devo ser eu a te querer deter
Com esta tola vida?



V


Para te esquecer vou santificar-te
Sacralizar a tudo que tocares
E te trazer comigo à algibeira,
Preso ao sacrilégio do meu corpo.

Amuleto que te faço para minha sorte
Adoração, prece, danação!
Renunciar a todos os santificados
E erigir sobre mim o teu altar.

Penitência do esquecimento
Essa oração que rezo todo dia,
Inabalado da fé de que és sagrado.

4.1.06

Preciso da sua doçura!

O poeta pede-me a doçura que não tenho, alheado ao caos de fel que pulula nas minhas veias. Nas veias só não, já a minha carne imiscuiu-se dele e fede um sal de mil sulfitos avançando sobre todo o organum, comendo as peles dos desejos, a vertigem glandular dos meus sentidos e as portentosas dobras do meu esconderijo, ocupou meus poros com as preocupações dos dias e deixou-me deslizando nos vestígios do que eu supunha ser aquela doçura que me pedes. Foi-se a doçura poeta, manhã cedinho, arrebanhou umas quantas emoções e concedeu-me um beijo descuidado enquanto eu roncava minha ressaca de ressentimentos. Decidiu que comigo não ia mais... Era terna demais pra selvageria de minh'alma e corria o risco de gostar dessa velocidade e perder-se totalmente. Foi pela pura decisão de continuar a ser doce e fazer comigo o contraponto de sua natureza, condenou-me, assim, ao fel absoluto, deixou apenas a lembrança de sua boca na minha, pra que eu nunca esqueça desse açúcar que me embriagou por anos. O que faço sem ela? Desespero! E deixo o fel silenciar-me.

2.1.06

SONO DOS ANOS

Há certamente uma vontade movendo os meus dias. Há certamente mais dias a mover-se na minha vontade. Mas o que fazer da preguiça dos primeiros dias do ano? Essa sonolência que me toma como se cada ontem tivesse sido a farra definitiva do mesmo revélion? O que fazer com essa surdez do corpo, mouco aos meus comandos de rotina de trabalho? Ele dá de ombro e vira-se pra o lado, negando-me a energia dos expedientes. Que fazer? 2006 começou numa fadiga da gota. Começou o ano, mas eu ainda não. Durmo o sono de 2005. Será uma recusa em recomeçar ou uma pequena pausa nesse calendário que não cessa há quarenta e quatro anos? Sei lá!

31.12.05

DEUS E O POETA

O poeta sabe do seu amor pela estrada. Há muito se deu a ela como um cordeiro num altar de caminhos e só espera o golpe certeiro, a frieza da Lâmina rebuscando seu deus ali dentro, e é ele , poeta e deus de si mesmo, quem se retorce em regozijo, no eterno sacrifício.
O poeta é o que sofre a faca nas entranhas. Deus é quem goza o prazer de ver-se imolado todo dia.
A estrada só olha-os com uma ternura de séculos e uma compaixão só possível nos homens. Ambos brincam de papéis que desconhecem e nisso vão se fazendo num e noutro poeta e deus da mesma estrada.
Há o que trabalha o verso, reúne palavras para inventar o diário da fantasia e o outro quer ser inspiração, modelo de uma perfeição que sacrifica.
Um caminha acima da estrada, um vento que corre leve sobre ela, movendo intenções e descaminhos, o outro o alcança com menos de um gesto: um vocábulo! Entroniza-o ou o destitui num sopro de voz articulada. Um se quer senhor dos mundos e o outro só anseia a orgia das palavras, imiscuir-se nelas, tomar-lhes o som, confundir-lhes o sentido e estertorar com ranhuras que elas nunca saberão decifrar.
O poeta sabe do seu amor pela estrada. É nela que recolhe o fel dos anos e quase sem querer torna-se deus.

Deus se olha no espelho e vê o poeta, reinando sobre emoções e sentimentos, um mundo que ele só achava possível em sua divindade.
O poeta olha o espelho e só encontra palavras. Desconsola-se: O que fazer com palavras quando é tamanha sua fome?
Experimenta-as, morde, arranca-lhes pedaços e vai devorando cada naco que elas lhe concedem. O poeta não sabe mais se sacia nelas. Elas sabem que seu destino é esse, saciar a boca dos poetas e por isso se entregam fartas e saborosas.

Deus não vê sentido nenhum nessa voragem, concebeu seu mundo numa ordem onde não cabe ao homem devorar palavras. Ao homem cabe devorar outro homem e assim tem sido deste os primeiros tempos.

O sabor que o poeta arranca das palavras fere o senso de deus e sua ordem interior.
Deus e poeta cavalgam juntos, buscando desesperados conhecer a natureza do outro, como se ali estivesse a explicação de suas próprias existências.

Enquanto se buscam fazem a estrada e deixam sobre o mundo um rastro de leis e versos.

Deus esqueceu-se por completo e o poeta apenas lembra vagamente que no começo era o verbo.

6.10.05

COMIDA, DIVERSÃO & ARTE

O que faz uma senhora de setenta anos, vestir uma roupa extravagante, colocar um chapéu todo enfeitado de adereços e ir pra rua mover-se ao som de alguns tambores, num ritmo e numa vitalidade que quase nunca é a mesma que ela demonstra na rotina dos seus dias de dona de casa e avó?

O que será que move a uns quantos jovens a transformarem as vicissitudes de suas adolescências, e do horizonte periférico onde moram, em matéria de criação para suas canções algumas vezes ininteligíveis e barulhentas?

E outros, a se recolherem no silêncio de seu isolamento para consumir canetas e papéis num diálogo absurdo com o mundo e consigo mesmo, prenhes de solidão, quando não a arrancar figuras e cores de um universo que vive aprisionado em suas cabeças e gritam desesperados por sair, ou mesmo a inventar gestos e nomes que dão vazão a uma sede explícita de expressão? Como é grande essa sede em nosso povo!

E pra que tudo isso? Por que essa gente vive abrindo mão de algum conforto material e imaterial, de algum convívio social, familiar, para lançar-se numa seara, muitas vezes incompreendida e censurada, mais das vezes desprezada. Por que para além das necessidades do corpo essa gente busca um alimento pra alma, como se lhes fosse de todo impossível continuar vivendo sem essa hóstia da emoção?

É dessa emoção que quero falar, do entusiasmo do momento da criação, da emoção de poder emocionar que toma conta do artista no instante preciso em que ele faz fluir uma energia que não se explica nos intrincados cálculos da física e ainda repousa longe dos mistérios que a psicologia pensa que desvendou.

E se por um lado há essa sede de criar, por outro, uma outra fome explica e justifica essa criação e lhe dá sentido coletivo e temporal. Há quem precisa criar e há quem precisa da criação, sem que tais papéis se cristalizem numa ou noutra posição indefinidamente. Porque também é enorme a sede de arte em nosso povo. Mesmo que não haja ainda uma consciência disso e outras necessidades se imponham ao viver diário das gentes turvando-lhes o desejo.

E ninguém será realmente cidadão sem que essa dimensão esteja contemplada, num ou noutro caso, afinal nunca poderemos nos reconhecer verdadeiramente se não tivemos a chance de expressar ou não tivemos a chance de emocionar-nos nessa expressão.

E é assim que nos fazemos homens e cidadãos pelo diapasão da arte e da cultura, uma como necessidade de expressão intrínseca ao homem, uma e outra como condição para a plena cidadania.

AUSÊNCIA

Curioso, vendo-o assim, indiferente ao vozerio que se fechou em torno dele, buscando-o num semidesespero, poderia jurar que quase nada mais lhe interessa. Desapegou-se de todo das coisas terrenas, se quer saber mesmo, o seu ouro agora está sob si, na tosca forma dessa rede onde balouça seu cansaço e sua outrora irremediável crença na humanidade. Desfez-se de tudo. Ermitão que se entrega ao zelo do pensar, só pensar, não fraqueja mais aos memorandos das fomes e das sedes, nem se deixa encilhar por seus iguais em carne e espírito, aliás, deles abdicou também. E a estrada que era o móvel do seu maior interesse, fechou-se numa encruza. Seguir não pode, ou melhor, não quer. O mais longe, esse pêndulo que a rede descreve sobre o chão e nenhum côvado adiante. Batem-lhe à porta, sabe, ouve distante este tinir de aldravas, mas nem se mexe, é uma sonolência de Cinderela, de quem, há pouco, despediu-se em Boa Noite. O roupinol do poeta dissolvido no cálice de suas memórias e por mais que lute pra acordar, foi tomado por uma letargia, uma semi-inconsciência contábil a lhe conferir os dias, os amores, as vilezas, os prazeres, os vestígios de um cheiro que ficou na infância, o som de uma primeira risada, quando sequer sabia o que era riso, e a surpresa de ouvir-se assim, de novo tão menino e feliz. Impede-lhe o passo uma tonelada de anos, uma exaustão de séculos, o peso do Fuji, do Kilimanjaro, da Mantiqueira, dos Órgãos em cuja planície, um dia, descobriu o irmão do seu sorriso numa boca fêmea, numa boca rubra, molhada, labiosa, funda. Ah, vontade de retornar a essa boca rumorosa, enfurnar-se lá dentro como no primeiro dia e ir voltando à doçura do ventre, à fecunda manhã em que se abriu ao fantástico mundo interior e ficar lá, ouvindo uma batida pelo lado interno da porta. É esse chamado que quer atender, que quer acompanhar, que quer unir ao seu chamado interior, inaudível e desesperançado... "Eu sou sozinho, já disse que sou sozinho" e esse calor, esse aconchego, esse conforto, esse gozo de existência, o que será? Essa rede que envolve meu corpo, esse desespero ao lado, a gritaria, esses meus olhos que não cessam de ver sem enxergar?
− Curioso, vendo-o assim, indiferente a tudo, poderia jurar que adormeceu.

4.10.05

IMAGINE !

Elvira Eldorado é uma preta, velha, tem setenta e dois anos. Todo sábado, descansada do almoço, lá pelas três, ela sai de casa com seu passo miúdo, sacola na mão levando um tesouro. Um vestido de cores e estampa extravagantes, um punhado de colares de contas variadas e um chapéu trabalhado com enfeites kitch, que ela nem sabe o que é, mas que é, na linguagem dos dias de agora, vistas pelos olhos de quem gosta de lê.
D. Elvira não gosta de lê, mal assina o nome. D. Elvira gosta mesmo é de dançar. Passa a tarde toda saracoteando no terreiro de seu Jorge. Ela e as meninas da sua idade. D. Elvira dança, brinca, sacode absurdamente o corpo como se fosse uma menina de 13 anos e é essa menina mesma que ela vê quando brinca, lembrando do terreiro varridinho de sua avó quando ela era menina moça. Mas a avó agora é ela. Naldinho, seu neto, vê a avó sair todo sábado e pergunta pra onde ela vai.

Vou brincar — Responde D. Elvira, com risinho sapeca.
Como é que a Vó numa idade dessas ainda vai brincar? — E Naldinho fica intrigado.

Naldinho não sabe, mas Elvira é uma criança como ele, lá no íntimo. Nunca deixou que suas dores fossem maiores que ela. Isso não. Nem o suplicio de casar e viver pobre com três filhos para criar, nem a doenças que levou metade da família, nem os dias de fome, um jejum involuntário que ela passou com paciência e sem perder o gosto pela vida.
No terreiro de seu Jorge, quando Elvira não vem a alegria é menor. Ela tem um jeito de dançar, um jeito de cantar que todos sabem que é especial. E é mesmo. Elvira é dessas pretas que traz um pedaço da África no corpo e uma brasilidade que se foi formando nos anos. Elvira olha seu Jorge com um olhar travesso e o velho não se contém. Tivesse o mesmo vigor dela, agarraria essa preta agora mesmo, na frente de todos, e encheria ela de beijos. Mas Elvira vira o olhar, já está puxando outra cantiga, fazendo uns sons coma boca que ninguém consegue imitar...

Janis X mal chega em casa e se tranca no quarto em que ele o irmão dormem. O irmão que se vire. Ele fica ali ouvindo suas músicas barulhentas, suas letras ininteligíveis, um fone no ouvido impede a que a casa vá abaixo. Não adianta sua mãe chamar, nem dizer que vai levar ao médico, nem ouvir os conselhos da vizinha sobre as esquisitices do filho. Janis X vive o seu mundo de melodias e imagens que ele cria na cabeça.
Depois vai pra Lan house e fala com o mundo todo, escreve poemas que ele não sabe, mas que flagra o mundo e o seu tempo, faz um diálogo absurdo com o cosmo e consigo mesmo tentando entender quem é, de onde vem e pra onde vai. Não adianta! Gasta toda a grana em horas seguidas de internet e quando sai da Lan continua com as mesmas dúvidas de quando entrara, mas falou muito com todos e descobriu que o doido não é só ele. O mundo tá cheio de doido! Descobre surpreso e alegre, um sentimento de par, de alguém mais conviver com essa sensação de merda que lhe toma de vez em quando.
Adora sexo virtual, fica curtindo uma minas nuas, bucetas arreganhadas, cuzinhos à mostra, seios de vaca... Adora imaginar-se chupando esses seios, mas muda de pensamento, pois logo lhe vem a imagem da mãe amamentando-o e isto corta seu barato e ele se acha mais doido ainda... Não! Com mamãe não dá!
De vez em quando entra nuns site gays e disfarça que é só de sacanagem, mas no fundo no fundo sente que é mais, tem alguma coisa ali que lhe atrai... Puta que pariu! É melhor voltar para o Nirvana...

Quando Jackson disse ao pai que ia entrar num grupo de teatro o velho quase engasgou. Velho não, que o cara só tem 40, mas tema cabeça dos ancestrais. O menino leva jeito pra o teatro, tem o corpo delgado, uma silhueta que por pouco não chega ao feminino, mas trejeitos não. Nada dessa frescura de viadinho novo querendo dar, sem nenhum preconceito.
Jackson gosta mesmo é de viver outras pessoas, outras gentes, outras línguas, sabe que tem dentro de si milhões de seres querendo dar passagem ao mundo e que ele pode ser o porta-voz dessa torrente que lhe toma quando lê uma frase e sabe que alguém falou por ele.
Elvira, Janis X, Jackson são personagens fictícios, mas trazem consigo verdades que existem em cada esquina em cada bairro em cada cidade.
Tem mais. Tem muitos outros, cinéfilos, pintores, bailarinos, poetas, músicos, atores, palhaços, malabaristas, estranhos, taciturnos, inadequados, rodados, pinguços...
Todos eles sentem uma enorme sede de expressão e ficam tristes quando sublimam o impulso que lhes dariam vôo ou quando uma vez vislumbrado o impulso, não têm como voar. Há um deles, certamente, pertinho de você. Ou em você. Eles podem estar disfarçados de um sem número de idéias e esquisitices. Não ligue.
Agora, imagine botar tudo isso pra fora. Imagine!

BAFO DAS MUDANÇAS

Ando sentindo o bafo das mudanças tentando me envolver no seu fumo espesso. Sinto seus miasmas evolando-se do chão aonde piso e invadindo minhas narinas em busca do que em mim desespera por romper-se. Um cansaço extremo do bom mocismo me incita a caminhar com ele, com essa fedentina, imiscuir-me no insondável de sua cor, seguir no halo desse olor e ir até onde ele possa me levar. Encarar a canalhice, a vileza, o mau humor crônico, o fel dos dias, a pestilência das suas supurações. E o seu cheiro! Deixar as narinas entorpecer-se deste bafo e até gostar de sua quentura fétida. Mas reencontrar-me aí, onde a pureza se evadiu. Buscar meu tecido exangue, meu cromossoma mais original - o mal - desvelá-lo, dar-lhe nova guarida na minha alma e fazê-lo pulsar de um prazer medonho. Descobrir o fóssil dessa minha primeira estrutura corpórea e regozijar-me ante a sublime contemplação desse deus que me habitou sem que eu tivesse a consciência dele. Entregar-me totalmente ao seu comando. Despir-me dos últimos traços da decência e afundar na escuridão desse universo. Salteador que habita as sombras das ruas desoladas, inquilino insone de crimes hediondos, encarnação da perversidade, maquinador de golpes, sofrimentos, causador das dores mais terríveis, mais doídas, ser que se compraz com choro, o grito de terror, e se alimenta do medo que as almas exalam quando mortas em desespero. Ai, que gostosa iguaria! Essa, que saboreio da boca da minha própria vítima, arrancando de seus lábios esse estupor delicioso, esse assombro que me extravasa em êxtase, esse frêmito orgástico, esse pavor divino! Quem dera ter sido sempre assim, quem dera ter-me entregue desde sempre a essa natureza maligna e ter-me convocado infinitamente para o mal, anjo que descobre sua outra face luminosa e abdica da ilusão de claridade em que viveu. Face que se volta para trás em busca de outra divindade e recusa o idílio de uma paisagem inexistente... Só há liberdade aqui! Longe desses olhos que anseia controlar minha natureza interior e me censura o gesto, o gozo e a fala plena. Só há liberdade aqui.