FACA
Essa faca que sentes na garganta, sinto-a também, sua lâmina fria, sua cintilância que encanta e amedronta, seu gume que espreita a hora de se fazer parte de minha alma. Mas não vejo a mão que a segura. Sei que é firme e de sua intenção não há que iludir-se. É arma e seu destino quer cumprir sua natureza de morte, de golpe, de desvario. Ela brinca comigo, passeia pelas costas contando minhas vértebras, se demora um pouco no cóccix e desce lenta sobre a montanha das minhas nádegas, dança com meus pelos, eriça-os suavemente, é prazer ou terror? Depois sobe voluptuosa em busca de outras reentrâncias, faz como meu caminho até as minhas casas, minhas cidades, meus países. Por vezes crava-se um pouco na carne, deixa-se enterrar devagarinho, nada mais que uma incisão na epiderme dos meus sonhos e vejo-a retirar-se molhada, limpando seu suor sobre meu corpo. Essa faca lateja, às vezes percorre sôfrega o desenho de minha boca, como se ansiasse um beijo nunca tido. Meu Deus, que pesadelo! Quando penso que ela se foi, um risco de luz pelo canto dos olhos me diz de sua presença silente, e quase posso ver seu riso metálico. Ela me sustenta, respiração presa, fôlego suspenso, anos a fio nessa tensão... e a faca lá, enfurecida, descansando em minha própria mão...

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home