22.9.05

INTERNU MOTU

Quando começo a passar a vida em revista acho que estou perto de morrer. Isso me aflige momentaneamente. Desfaço os pensamentos e tento sair desse balanço, às vezes moral, que me intercepta a cabeça com força contábil.
Hoje acordei pensando nos meus amantes e nos meus amores. Um a um desfilei a imagem daqueles que por certo tempo foram responsáveis por gozadas extraordinárias e a quem, por certo tempo, eu fiz feliz sexualmente em longas jornadas de amor e ternura. Cheguei à conclusão de que não posso reclamar. Tive muitos amores, muitos homens especiais que dividiram comigo a infâmia de amor esquivo, mas profundamente inevitável a eles e a mim. E tive também mulheres sensacionais. Moças que tiveram a coragem de olhar por cima do muro e me descobrirem lá, flagrando-me na minha mais absoluta nudez. De corpo e de alma. Acho que foram as mulheres que mais me conheceram pelo que sou. Alguns homens arriscaram, mas uma barreira imposta por mim mesmo talvez, ou por eles, impediu-os de irem adiante.
As mulheres são mais voluntariosas e obstinadas. Viram a mim como muitas vezes nem eu mesmo ousei me ver, ou tive coragem para tal. Mas elas invadiram meu território, amazonicamente, e me fizeram dissipar um par de asneiras que eu mantinha sobre mim como forma de me ocultar de mim mesmo. Talvez por isso a minha relação com as mulheres nunca tenha ido verdadeiramente à frente e, no caminho, eu tenha sempre atalhado pelo fim, pelo afastamento ou pelo desvio. Sei que fiz sofrer muitas delas, incapazes, aí sim, de compreenderem tais reações. É que quando uma mulher vê um homem na sua inteireza, pensa que o tem só por conseguir vê-lo. Mas não. Um homem não se aprisiona assim. Aliás, quase nunca se deixa ficar realmente. Às vezes mente para si e passa a desempenhar um papel semelhante ao que elas anseiam, mas certamente guardam no fundo da alma a idéia marota de que, se quiserem, podem ir-se a qualquer instante. Não podem. Às vezes ficam para sempre, mas é absolutamente essencial que acreditem nisso.
As mulheres que me olharam de perto e conseguiram me ver, me quiseram. Isso é realmente um grande consolo. Elas me quiseram assim mesmo, prenhe de defeitos e confusões e exageros e segredos. E talvez tenha sido justo isso que me fez desistir delas: o fato de me quererem. Penso muitas vezes que sou avesso ao carinho e ao querer. Jogo comigo um jogo inútil e doloroso de renegar o desejo do outro e exasperar-me ante qualquer vestígio de rejeição. Não suporto a rejeição. Ela dói mais que qualquer coisa. Força-me a um estado de completa nulidade e eu preciso desesperadamente saber-me de algum valor para continuar existindo. Senão, pra que viver?
Alguns homens chegaram perto de conhecer-me, mas nunca deixei que eles atravessassem essa última barreira. Não consigo viver sem um vestígio de mistério a me marcar, uma silhueta difusa a confundir os olhos e os sentidos, um meneio de corpo que surpreenda a intenção do outro de conhecer, seguro, a minha rota. Foi por isso que me forjei à solidão para a qual sempre havia me preparado: essa extrema vontade de permanecer – numa razoável dimensão – desconhecido ao outro.
Divago: Será que na verdade não quero ficar desconhecido a mim mesmo? Pode ser. Ou pode ser apenas uma vontade de não ter limites, de seguir por caminhos que eu jamais esperei trilhar e quando o fundo do poço houver batido na minha cara, ter forças para ir mais adiante, ainda que seja para os lados, ou até mesmo regressando. Não creio que eu seja totalmente desconhecido para mim, mas diviso lugares ainda sombrios, zonas para as quais ainda não me aventurei. Se tenho medo disto? Claro! Não é fácil conviver com esse arrojo irrecuperável.
Mas também não saberia viver com a cartilha na mão. Não, isso nunca! Farta-me um viver comezinho, tido e havido. Um viver aonde eu mesmo não possa me surpreender. Por isso é que nem todos os homens e mulheres do planeta conseguirão me fazer feliz. Porque a felicidade é uma espécie de receita preestabelecida para a qual todos querem correr loucamente, inventando fórmulas, adágios e trambicagens. Quando botei o pé naquilo que supunha ser felicidade, fui tomado por uma náusea insuportável e vomitei.
A felicidade requer talentos para os quais não estou apto. Paciência é um deles. Ser feliz tem a ver com ser paciente e ir descobrindo essa matéria nas coisas que nos cerca, ir formatando ela para o tamanho da vida que temos e fazendo disso sonhos que supomos ser inéditos ou legítimos. A paciência foge de mim como um cão da carrocinha. Também não abro mão dos meus instintos, nunca faria isso à minha ancestralidade mais remota. Festejo com eles cada arroubo, cada frêmito, como se de novo estivesse livre na savana, correndo, encurralando um animal ou espreitando avidamente uma fêmea. Ou um macho!
Quando abrir mão dos meus instintos saberei que estou próximo da morte, como agora, quando fecho para balanço. Mas não me entrego. Deleto essa insuportável dose de reflexão, reservo-a para outros dias. Não vale à pena morrer nessa tarde.