22.9.05

RÓI O TEMPO

Rói o tempo ao meu redor com seus dentes pontiagudos. Rói-me e a sensação não é de dor, nem de prazer... roer-me assim é sua vontade máxima e me entrego a essa fagia com a calma de quem já dominou o medo de seguir... na verdade fui indo sempre, avançando contra esses dentes gulosos, contra essa ferocidade dócil, porque às vezes não sei mesmo se são eles quem me roem ou eu que os vou devorando em minha passagem. Vida sem isso não existe mais ou faz sentido, pois já tornou-se o móvel de si, o eterno retorno, ação que quando deflagrada já não se pode mais parar, bala zunida pela ânsia do gatilho, som articulado que enumera a palavra já pronunciada, dita, mesmo que a boca agora silencie e recolha, inútil, seu próprio som. Rói-me o tempo em sua voragem madura, seca, rígida, sincopada e eu me entrego a suas ranhuras, suas engrenagens que se auto devoram, trôpegas. Elas querem a mim como eu as quero também, pois é grande minha fome de saber-me para além de mim, para além do tempo, dessa própria comilança a que me sentencio. Eu devoro o tempo e ele a mim, promíscuos, enlaçados numa sina sem rédeas, inertes a quaisquer leis que ousem querer nos comandar. Vem o tempo e eu vou a ele como a folha que o encontra sempre, a cada estação, para o seu balé de outono. Vai o tempo e venho eu, perseguidor, inebriado pelas fragrâncias que só ele me reserva e só eu consigo percebê-las. Ficamos assim enganchados um ao outro. Ele com sua fúria de passagem e eu impregnado de sua eterna rota.