AUSÊNCIA
Curioso, vendo-o assim, indiferente ao vozerio que se fechou em torno dele, buscando-o num semidesespero, poderia jurar que quase nada mais lhe interessa. Desapegou-se de todo das coisas terrenas, se quer saber mesmo, o seu ouro agora está sob si, na tosca forma dessa rede onde balouça seu cansaço e sua outrora irremediável crença na humanidade. Desfez-se de tudo. Ermitão que se entrega ao zelo do pensar, só pensar, não fraqueja mais aos memorandos das fomes e das sedes, nem se deixa encilhar por seus iguais em carne e espírito, aliás, deles abdicou também. E a estrada que era o móvel do seu maior interesse, fechou-se numa encruza. Seguir não pode, ou melhor, não quer. O mais longe, esse pêndulo que a rede descreve sobre o chão e nenhum côvado adiante. Batem-lhe à porta, sabe, ouve distante este tinir de aldravas, mas nem se mexe, é uma sonolência de Cinderela, de quem, há pouco, despediu-se em Boa Noite. O roupinol do poeta dissolvido no cálice de suas memórias e por mais que lute pra acordar, foi tomado por uma letargia, uma semi-inconsciência contábil a lhe conferir os dias, os amores, as vilezas, os prazeres, os vestígios de um cheiro que ficou na infância, o som de uma primeira risada, quando sequer sabia o que era riso, e a surpresa de ouvir-se assim, de novo tão menino e feliz. Impede-lhe o passo uma tonelada de anos, uma exaustão de séculos, o peso do Fuji, do Kilimanjaro, da Mantiqueira, dos Órgãos em cuja planície, um dia, descobriu o irmão do seu sorriso numa boca fêmea, numa boca rubra, molhada, labiosa, funda. Ah, vontade de retornar a essa boca rumorosa, enfurnar-se lá dentro como no primeiro dia e ir voltando à doçura do ventre, à fecunda manhã em que se abriu ao fantástico mundo interior e ficar lá, ouvindo uma batida pelo lado interno da porta. É esse chamado que quer atender, que quer acompanhar, que quer unir ao seu chamado interior, inaudível e desesperançado... "Eu sou sozinho, já disse que sou sozinho" e esse calor, esse aconchego, esse conforto, esse gozo de existência, o que será? Essa rede que envolve meu corpo, esse desespero ao lado, a gritaria, esses meus olhos que não cessam de ver sem enxergar?
− Curioso, vendo-o assim, indiferente a tudo, poderia jurar que adormeceu.

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